Author Topic: Banquetes no Palácio  (Read 595 times)

(RIP) Lopo Siciliano

  • General group
  • Baby Member
  • *
  • Posts: 1
  • Honour: 0
Banquetes no Palácio
« on: 15 August, 2016, 07:57:50 PM »
Gentis homens se assentam no Salão, em volta da Rainha, nas noites em que esta realiza banquetes. Com muita destreza, tratam de contar fatos do cotidiano do Reino, passagens de suas próprias vidas ou histórias reais ou inventadas que o povo tem o costume de reproduzir, com a intenção de entreter, fazer refletir ou enternecer o coração da gentil soberana, que a todos escuta com a paciência que lhe é própria.
Eis que numa dessas ocasiões, em noite calorenta de Verão, um forasteiro, que há pouco se instalara em Lisboa, se ajuntou aos demais convivas e desfrutou dos víveres que lhe foram oferecidos. Foi trazido ali pela própria curiosidade, já que não conhecia ninguém, importante ou desimportante, que o pudesse introduzir. Para sua surpresa, foi muito bem recebido por todos. Mas surpreendeu-se inda mais com a forma natural com que a soberana tratava a todos, sem distinção de classe ou título.
Depois de muito desfrutarem do banquete, e já bem pesados com o vinho e a comida, assentaram-se todos os presentes nos divãs do Salão, ricamente ornado, espaçoso e confortável. Muito barulho ainda se fez, até que um dos presentes pedisse silêncio: a soberana falaria. Com a expressão um pouco grave, iniciou: "É do conhecimento de todos neste salão, e certamente do povo em geral do Reino, que muitas mazelas afligem nossos tempos. Portugal, pela graça da Fortuna, é das terras mais prósperas que há no mundo. Se se caminha por suas ruas, escutar-se-á das bocas, e se verá no ar da gente, que há já muito da prosperidade que os soberanos costumam prometer. Entretanto, não é de se negar, que em toda parte, fora deste Reino, e já dentro dele, em algumas freguesias, a Peste caminha a passos largos, faminta de toda carne e de toda vida, destruindo vilas inteiras e entregando à solidão o que antes pulsava de vida." Pousou o olho sobre a mesa coberta de guloseimas à sua frente e acomodou nela seu cálice de vinho. E prosseguiu:"Pergunto-vos: se estes tempos hão de se assombrar inda mais, se é certo que depois de contraído o mal, pouco se pode fazer, o que impede o homem comum de largar a enxada e o pudor, e correr aos campos à procura do que mais lhe apetecer, violando as regras que se lhe impõe os costumes e as Escrituras?"
Era pungente o pesar nas palavras da soberana. Murmúrios se seguiram a elas, e depois muitos discursos, num esforço coletivo de acalentar o coração da nobre senhora. Uns diziam: "Nosso bom Deus não permitirá que a isto seja provado Portugal!" "O seu Deus nada poderá fazer. É tudo muito grave, é verdade!" Retrucavam outros. O forasteiro, de nome Lopo de Castro, mas conhecido por todos como Lopo Siciliano, por provir daquela ilha do Mediterrâneo, a tudo isso ouvia e com tudo isso parecia se entreter.
Eis que um clérigo, que próximo da Rainha se encontrava e que parecia ser dos mais compadecidos dos temores dela, notou o ar de prazer que Lopo apresentava e levantou a voz, de assalto. "Vejo que entre nós há um homem de rosto pouco familiar, que aparenta permanecer tranquilo com a situação, a despeito de todo o assombro e agitação que nós neste recinto manifestamos. Queira se apresentar, nobre colega!"
Lopo se levantou, esforçando-se por demonstrar que não estava tão tranquilo assim. "É bem verdade que não fui tomado de assombro pelas palavras da Rainha. Mas se isto ocorre é porque, sobretudo, é do meu costume procurar manter-me calmo em qualquer situação. Esta é uma virtude que me é cara. Ademais, não conheço tão bem Vossa Majestade como conhecem os senhores, de modo que seria pedir de mais que eu demonstrasse compaixão semelhante à que os senhores apresentam." E dirigindo-se à Rainha: "Peço desculpas por não ter me apresentado ainda, Majestade. É que todos os vossos convidados a rodearam a noite inteira, e não tive a oportunidade de conversar  convosco."
A Rainha, agradecida com as palavras do forasteiro, respondeu-lhe: "Pode sentar-se, meu nobre irmão. Faço gosto da sua presença. Apresente-se, então." Lopo, já sentado de novo no divã, prosseguiu: "Meu nome é Lopo de Castro. Mas sou conhecido por todos como Lopo Siciliano, desde os tempos em que morava no Magreb muçulmano. Sou filho de português, mas cresci na Sicília. Depois de muita ventura, mas também de muita desventura, ouvi falar das belezas de vossa cidade e aqui vim-me ter, na intenção de reencontrar a primeira. Saiba, nobre senhora, que para a qual me posto como súdito fiel desde já, que não ouso tomar como sem-importância os vossos temores. Também tenho temores semelhantes. O que ocorre é que possuo uma visão das coisas que difere do que foi dito pela maioria dos senhores aqui."
« Last Edit: 15 August, 2016, 09:15:44 PM by Lopo Siciliano »